domingo, 18 de maio de 2008

Aula Típica


Bem, pessoal, para incrementar um pouco as nossas discussões, gostaria que vocês descrevessem um aula típica de vocês, ou seja, uma aula padrão - aquela que vocês normalmente dão: o que fazem, quais os passos que seguem, como utilizam os recursos da aula (quadro negro, material didático, etc.), como lidam com os alunos (como eles são organizados, que tipo de atividade realizam, como participam da aula, por exemplo), e como lidam com os problemas (indisciplina, perguntas inesperadas, etc.). Enfim, façam um relato bem detalhado daquilo que vocês costumam fazer na aula. Pensem especificamente na turma que vocês escolheram observar para o processo de Pesquisa Ação Colaborativa. Incluam também algumas reflexões, se desejarem, como a sua percepção sobre cada um dos itens acima ou de qualquer outro que vocês queiram relatar. Não se esqueçam de descrever sua sala de aula fisicamente.

8 comentários:

Deize disse...

Normalmente, minha aula começa com a chamada (bom, quando lembro de fazer). Não uso muito o quadro porque os alunos xerocam o material que eu mesma preparo para estudarmos durante o bimestre. Este material é produzido seguindo (ou tentando seguir) a nova proposta curricular para o ensino médio. Por isso, os textos e atividades são tirados da Internet por sugestão ou adaptação do que diz a proposta.
A aula acontece de duas formas: ou introduzindo algo novo ou retomando a aula anterior. No primeiro caso, como são apenas duas aulas de cinqüenta minutos, aproveito o tempo para ler os textos com os alunos, explicar matéria, orientar trabalhos e deixo de para casa as tarefas a serem feitas. Isso por duas razões, uma que temos pouco tempo para fazermos tanta coisa e outra que poucos fazem algo na sala, ao invés disso ficam batendo papo, enrolando. No segundo caso, se eles vão para casa com atividade, na aula seguinte eu dou o visto para ver se todos fizeram (e esses vistos valem pontos senão ninguém faz) e corrijo a atividade. Este é um momento em que uso o quadro, às vezes tento corrigir oralmente mas não funciona muito porque os alunos se perdem. Em geral, tenho um bom controle da disciplina da sala, e raramente os alunos questionam alguma coisa, eles foram muito bem treinados em sua trajetória escolar a não fazerem perguntas, e infelizmente, são ótimos nisso. Minha escola é muito tradicionalista, as carteiras são enfileiradas, um aluno sentado atrás do outro. Pasme, mas em reunião, a diretora já reclamou da mudança da disposição das carteiras, tem que ser uma atrás da outra... embora mesmo que quisesse fazer algo diferente é meio complicado porque a turma é lotada e mal sobra espaço para colocar as carteiras de outra forma. Os alunos só se sentam em duplas quando fazem uma atividade para ser feita em dupla. Na sala de aula, há pouca participação dos alunos. Eles ainda continuam passivos, esperando a informação, verdadeira e absoluta, do professor. Nós, professores, enfrentamos um problema grande porque os alunos, em geral, chegam ao ensino médio sem o hábito de estudar, muito menos de pensar. Apesar de os documentos oficiais dizerem que não há a aprovação instantânea, o que se vê é exatamente o contrário. Os alunos estão no primeiro ano do ensino médio, com 14 ou 15 anos, quero dizer, dentro da faixa etária, mas com milhares de lacunas no campo do conhecimento que raramente serão sanadas. E por mais que as pesquisas no campo do conhecimento avancem, dentro da escola o que prevalece é a tradicional forma de ensinar que há décadas é reproduzida: professor fala, aluno ouve.
Deize

Anônimo disse...

Nas minhas aulas raramente uso o quadro negro, levo atividades xerocadas de um livro voltado para crianças. No entanto, o que percebo agora é que não posso ficar somente preso no xerox desse livro. Pelos nossos últimos encontros, percebi o quanto é importante buscar novas fontes de material e o quanto é importante antes de propor novas atividades responder (para si mesmo) três perguntas: vou fazer isso? – para isso? - e por isso?.
Para ser sincero, certamente já propus aos meus alunos atividades que nem eu mesmo sabia por qual motivo eles as deveriam ter feito. Entretanto, cabe aqui ressaltar que isso não foi feito intencionalmente e que isso não quer dizer que minhas aulas não tenham sido significativas, mas que certamente posso melhorá-las, propondo atividades mais “reais”; atividades que permitam aos meus alunos perceber a funcionalidade e o uso do Inglês no dia-a-dia.(Conto com a ajuda de vocês!)
Em relação à organização da sala de aula, os meus alunos se sentam um atrás do outro, raramente os deixo sentar em dupla. Quando a conversa está demais peço a eles para prestarem atenção, isso funciona com as terceiras e quintas séries, já com as quartas a história muda, pra começar são as turmas mais cheias, com os alunos mais agitados e por eu não ser o professor referência, eles pensam que podem fazer o quê quiser dentro da sala de aula.
Em relação à participação, percebo que a terceira série se sobressai, eles gostam de me ouvir falar e de participar das aulas, a todo momento, um ou outro me pergunta: “Professor, o que tá escrito aqui?”, “Professor, como é que eu peço mesmo para ir ao banheiro?”, etc. Quando eu não sei responder, anoto a pergunta e depois respondo. Ah, já ia me esquecendo outra coisa que eles adoram é o visto no caderno. ( Marcos Vinícius)

Anônimo disse...

O contexto com o qual trabalho é de alunos de 1º, 2º e 3º anos do Ensino Médio, no qual a maioria trabalha durante o dia e estudam à noite. Tenho 3 turmas de cada ano.
Com a turma com a qual resolvi trabalhar na pesquisa, utilizo o livro "Globetrotter", que foi adotado ano passado com as turmas de 1ºs anos (que hj estão, na sua maioria, no 2º ano) pela professora do período.
Nas minhas aulas, tenho utilizado apenas o livro. Eu começo retomando o que foi feito na aula anterior e, então, dou continuidade às atividades, seguindo sempre os passos do livro.
A escola possui como recursos: sala de vídeo, aparelho portátil de cd e retroprojetor. No entanto, para falar a verdade, a não ser com as turmas de 3ºs anos, não consegui utilizar nenhum deles até hoje.
A sala de aula é disposta de maneira tradicional com as carteiras enfileiradas umas atrás das outras. Porém, alguns alunos sempre dão um jeitinho de se deslocarem para se sentarem uns ao ao lado do outro. E eu, na maioria das vezes, permito que façam desta maneira; já que não são todos que possuem o livro. Para falar a verdade, já pensei até em deixá-los trabalhar sempre juntos (em dupla).
Normalmente, os meninos são participativos e colaborativos. Mas, tenho percebido que as aulas só com livro têm caído um pouco na mesmice e que eles parecem querer algo diferente. Acho que tenho que aprender a dar autonomia para os alunos se desenvolverem mais pois nossas aulas ainda ficam muito centradas em mim. Gostaria também de planejar aulas mais dinâmicas e nas quais possamos fazer uso dos recursos didáticos que temos na escola. Sinto que estou muito presa ao livro como se não fosse possível interferir e utilizá-lo de maneira diferente.
Em relação à perguntas inesperadas, quando não tenho a resposta, falo que vou verificar e darei o retorno. Mas, dependendo do aluno, falo que esqueci e que vou verificar. Na maioria das vezes, eles querem a tradução de palavras ou gírias que ouvem ou vem em letras de músicas, sites, etc.
A indisciplina existe e em algumas turmas, ela é maior, e em outras, menor. Nesta turma que mencionei acima, os meninos gostam muito de conversar e às vezes ficam despersos. A diferença deles para outras turmas é que, normalmente, quando converso com eles e chamo atenção, eles retomam às atividades.
Eu, particularmente, considero a indisciplina ainda como um dos grandes problema que temos em sala de aula e gostaria muito de lidar melhor ela.
Carla Cristina

Andrea Mattos disse...

Deize,

Muito boa a descrição que você fez da sua aula: bem detalhada e com várias reflexões. No fim, você colocou a seguinte frase:

"Os alunos estão (...) dentro da faixa etária, mas com milhares de lacunas no campo do conhecimento que raramente serão sanadas."

Gostaria de ouvir a opinião do Marcos e da Carla sobre isso. Vocês concordam? Por que vocês acham que isso acontece? E você, Deize, por que acha que isso acontece? Que tipo de lacunas são essas?

Andrea Mattos disse...

Em relação à aula do Marcos, um ponto importante sobre o qual ele já refletiu é a questão dos objetivos das atividades propostas. Como você está lidando com isso, Marcos? E vocês, Deize e Carla, como lidam com esta questão?

Quanto a aula da Carla, achei interessante quando você diz: "Em relação à perguntas inesperadas, quando não tenho a resposta, falo que vou verificar e darei o retorno. Mas, dependendo do aluno, falo que esqueci e que vou verificar." O que você quis dizer com 'dependendo do aluno'? Não entendi.

Deize disse...

As lacunas referem-se à falta de conhecimento prévio do aluno ao chegar ao Ensino Médio. Eu não sei exatamente onde os alunos se perdem porque trabalho com crianças do ensino fundamental, de seis anos, e eles são muito motivados a aprender. O aluno vai perdendo o gosto por estudar em sua trajetória escolar por muitas razões, dentre elas estão: a escola não avança muito nos métodos de ensino. Os professores insistem em teorias desvinculadas de prática. Os alunos não vêem utilidade na maioria dos assuntos estudados em sala de aula. O ensino é fragmentado. Os pais não cobram mudanças da escola. Os alunos são estimulados a não dizer o que pensam e sim reproduzir. A escola é metódica, os professores idem. O sistema privilegia a freqüência do aluno (bolsa escola, bolsa família...) ao invés do seu rendimento escolar. Os métodos de ensino evoluíram, mas muitos professores não acompanham essa evolução, seja por questão salarial, seja por falta de tempo, motivação, perspectiva, porque não querem, sei lá. Quando chegam ao ensino médio, os alunos estão carentes de conhecimento e de valores. Muitos valorizam só o passar de ano. Nosso sistema de ensino é cumulativo, se você não aprende uma matéria, terá dificuldade em aprender uma outra, pois a primeira era pré-requisito para a segunda. É muito mais fácil para nós, professores, fingirmos que não estamos vendo a dificuldade de nosso aluno e passar para frente com aqueles que dão conta. Temos uma carga horária pequena, um conteúdo extenso. Na escola o tempo é corrido. Infelizmente não dá tempo de parar para repetir o assunto a todos que tem dúvidas. Estas são algumas das razões que acredito que os alunos se formam cheios de lacunas.

Deize disse...

Eu também já me questionei muitas vezes, como o Marcos, sobre a questão dos objetivos. É péssima a sensação nós mesmos não entendermos o porquê e para quê estamos fazendo determinadas coisas na nossa sala. Depois de fazer alguns cursos, eu fico com consciência pesada de tudo que já fiz de errado em sala. Por isso que a gente tem sempre que estudar, buscar em livros e na universidade a teoria necessária para refazer nossa prática. Esta questão dos objetivos é muito clara se o alvo dos nossos objetivos for o aluno e não a gente. Quantas vezes eu já selecionei um texto que era mais fácil para mim, para eu trabalhar em sala e nem sequer pensei nos objetivos. O que eu pensava era na praticidade. Acho que eu nunca sentei diante de uma aula a ser dada e pensei: Quais são os objetivos? Só agora, a partir da leitura da Proposta Curricular Estadual de Ensino Médio é que estou me atentando para eles, os objetivos. Como não tem material pronto, para buscá-los pela Internet eu preciso delinear o que quero e para desenvolver qual habilidade, agora eu consigo entender a importância de definir os objetivos. O trabalho com o livro de alguma forma nos deixa acomodados, eu já trabalhei anos com livro e eram nessas ocasiões que eu não preocupava com objetivos mesmo. No livro, os objetivos são dos autores. Ele é que está com o poder de definir o que vai ser dado e com qual objetivo.

Anônimo disse...

Concordo com a Deize sim. Normalmente os meninos chegam às séries mais avançadas sem ter sequer as noções consideradas básicas para o prosseguimento e avanço nos estudos. E isso com certeza é um problema já que possuimos carga horária bastante reduzida, dentre outras condições desfavoráveis.
Hoje, percebo que isso acontece por falta de um planejamento adequado, que vai de encontro aos interesses do aluno; despertando nele a vontade de aprender. E isso não é nada fácil.
Como o Marcos disse, precisamos pensar nos objetivos das atividades que propomos aos nossos alunos. Às vezes, nem nós mesmos sabemos o porquê estamos ensinando. Eu também, como ele e a Deize, por inúmeras vezes propus coisas sem refletir e saber exatamente porquê estava fazendo. E é uma sensação muito ruim. Acho que só agora estou aprendendo a pensar melhor sobre tudo isso.

Em relaçao ao meu comentário; quando disse "dependendo do aluno", eu quiz dizer que, com alguns, se eu falo que não tenho a resposta para o que querem naquele momento, é motivo para duvidarem do meu conhecimento. E, para tentar evitar essas situações, falo que sei mas esqueci.
Carla Cristina